Fiquei deveras surpreso ao saber que o anti-vomitivo chamado de Dramin ainda continua no mercado. Dramin era imprescindível para qualquer viagem desde alguns quilômetros até a sede do município, Garibaldi, até uma viagem à distante capital do Estado, Porto Alegre.
Não sei se era o cheiro da descarga dos carros e dos ônibus, das curvas, dos buracos das estradas, da fumaça expelida pela Maria Fumaça, mas bastava o infeliz do viajante pôr os pés nestes meios de locomoção que o estômago entrava em erupção lançando lavas ácidas boca afora. Tinha gente tão sensível que até viajando com cavalo ou carroça não resistia ao vômito. O inditoso (a) ficava com aquela cara de vaca com aftosa, babando e com os olhos esbugalhados.
Nas viagens de trem, ônibus ou carro, este último um meio de transporte escasso, utilizado em situações dramáticas, como por exemplo um infarto, o que se viam eram cabeças fora da janela, com os cabelos zarpando e o infeliz vomitando. Os vagões de trem e a carroceria do ônibus estavam sempre bordados de líquido estomacal. O Dramin muitas vezes perdia a batalha vulcânica. Dizem que no mar o quadro é aterrador, que não existe marinheiro e tripulação que resista, ou seja, o marinheiro de primeira ou de última viagem não cria anticorpos premonitórios contra o terrível mal. Quem viaja de navio sente a permanente sensação de um terremoto gastro-intestinal. Com ou sem maionese, com ou sem Dramin, os viajantes marítimos colocam os bofes para fora. Se os cozinheiros dos navios são tão porcos como os cozinheiros(as) aqui da terra na elaboração dos alimentos, uma intoxicação alimentar num navio deve ser o Inferno de Dante, até o ânus vira para o avesso.
Coitados dos nossos antepassados, os imigrantes italianos, imaginem um milhão e duzentos mil italianos que aportaram no Brasil, jogados em navios imundos, sacolejantes, verdadeiras gaiolas, as estatísticas dos miseráveis são sempre falhas, quantos não terão caído ao mar durante uma crise vomitória, a conjugação de duas tormentas, a gástrica com as ondas exaltadas. A cena mais comum era: “Onde está o Bepin”, pergunta a mulher Marieta ao filho Giocondo. “Mãe, eu vi ele vomitando lá no convés”. A cena seguinte é a Marieta e o Giocondo abraçados, chorando em prantos, o quase finado Bepin está brigando contra as ondas, blasfemando e implorando ajuda.
Antigamente, eram escassas as viagens dos colonos para os centros urbanos, a maioria das pessoas nunca saía de um raio de ação de no máximo 50 quilômetros, as mulheres nasciam e morriam sem conhecer as cidades. Agia-se preventivamente contra o malfadado mal-estar que o vômito provocava, a recomendação era de nunca comer nada antes de uma viagem, afinal o Dramin não estava disponível em qualquer boteco de colônia, somente as boas farmácias do ramo, no caso a farmácia do ourives Francisco D’Arrigo, contavam com o milagroso medicamento.
Quando passava o ônibus da empresa Bona Vista, hoje Arcoverde, em direção à vila, a fotografia mais comum eram cabeças fora da janela, no seu interior o odor característico do produto descartado. Os motoristas, acostumados à rotina, não manifestavam a mínima solidariedade com a desgraça dos passageiros. No trem, a receita dos mais viajados seguia a posologia dos mais experientes: amarrar um lenço apertado no braço, mastigar um palito de fósforo e olhar para longe; em 99% o estômago não respeitava o empirismo da metodologia e regurgitava o conteúdo.

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