Os nossos antepassados passaram terríveis privações na Itália. A comida deles era basicamente polenta, polenta e polenta. Com os desequilíbrios de uma superpopulação que vivia numa era extremamente restrita, e como eles tinham pouca terra, ou quase nada, tinham como prazer, passatempo, caçar passarinhos. E eles eram pequenos.

Não é por nada que quando a italianada chegou nessa região inóspita, povoada de pássaros de tudo o que era tamanho, peixes, antas, tatus, lebres, quatis, inhambus, perdizes e perdigões, eles entravam em orgasmos.

Fotos de um viajante italiano de sobrenome Bocelli, que escreveu um livro sobre a Província do Rio Grande do Sul, e que circulou no Brasil e na Itália, escrito e editado em 1905, na Itália, são incontáveis as fotografias dos imigrantes que se juntavam aos domingos para realizar as caçadas e, pasmem, são pencas de bichos pendurados nas cintas.

Para quem passava tanta fome na Itália, imagino um colono lá por 1890 adentrando essas matas com árvores seculares, sendo derrubadas pelo machado e pela serra para instalar a futura roça de milho, trigo, feijão, centeio, cevada, parreirais. Essas árvores eram morada, hotel, de toda essa fauna variada. As rústicas casas de madeira edificadas pelos colonos, cujas tábuas eram rachadas com machado, no momento da solene inauguração as famílias dos colonos se reuniam para comemorar a conquista da nova terra, a oportunidade de ter um pedaço de chão que na Itália lhes tinham negado.

Nesses encontros, agora era polenta, o tócio (molho), mas com muita carne, carne de pássaros e de animais de rapina. Quanta felicidade estomacal. E ainda tinha o vinho, que embriagava lentamente aquela gente sofrida.

O imigrante italiano no Rio Grande do Sul ficou conhecido no Brasil inteiro como um amante das passarinhadas, principalmente polenta com tico-tico, que era cozido durante horas numa peça cilíndrica chamada de "menarosto", e o maior sonho depois de ter a casa construída, a roça formada, a família constituída, era adquirir uma espingarda, a stchopa.

Um colono do interior de Caravággio, Farroupilha, já falecido, que fazia essa iguaria, disse-me que o bom mesmo era língua de tico-tico flambada!

Os mais pobres, junto com os ferreiros criativos, fabricavam uma espingarda denominada "espera-um-pouco", onde a pólvora e o chumbo eram misturados e aprisionados com um bastão de ferro introduzido na ponta da arma. Não poucas mortes aconteceram com essa rudimentar arma.

No cotidiano dos agricultores, na rotina diária, eles levantavam cedo, tratavam os animais, ordenhavam as vacas e, com a carroça, se dirigiam à lavoura por estradas sinuosas, pedregosas e íngremes, por quilômetros o ranger das rodas, sempre com falta de graxa, e o entrechoque e o solavanco nos buracos pelas picadas.

A espingarda era sempre a companheira, pois um inhambu poderia estar chamando e não haveria desgraça maior para um colono do que perder aquela oportunidade ímpar de abater a penosa.

O colono, com a junta de bois e o arado revolvendo a terra, o silêncio sendo quebrado pelos papagaios nos pinheiros, a ebulição canora da passarada antes das chuvas, e o alarido festivo após a torrente de água. Nesse momento, o colono saía da proteção debaixo da carroça e começava a dar as suas "stchopetadas" (tiros) nos pássaros. Dar um tiro custava caro. Angústia acontecia quando não acertavam na ave.

A gurizada tinha sua iniciação com as fundas, bodoques, e quando juntavam alguns mil réis adquiriam um instrumento sonhado por muito tempo, a espingarda.

Não havia casa de colono sem espingarda. Interessante é analisar que nos dias atuais os temores das pessoas é serem assaltadas em suas residências. Os medos de antigamente eram os animais ditos bravios, onças, jaguatiricas. Hoje, os medos estão presentes nas 24 horas do dia e nem mais a ingênua espingarda consegue atemorizar. A bandidagem vem de metralhadora.

E, felizmente, a consciência ambiental e preservacionista fez com que pássaros voem felizes e sem medo de serem torpedeados em seus vôos, mas no que tange aos rios e riachos, eles estão putrefatos.

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