Volta Tenho para mim que não existe bicho que sofre mais do que o porco. Esta conclusão vale tanto para o meio urbano como o rural. Se o seu dono é assalariado urbano, o bicho é um laboratório de experiências gastronômicas; a denominada lavagem é uma bomba de TNT, tão ou mais eficiente que os scuds do poderoso iraniano Mahmoud Ahmadinejad, aquele que é tão anti-ocidental que renega a gravata.
A lavagem é um terrorismo esôfago-gastrointestinal. Como diz aquele ditado: “dize-me o que comes que eu te direi quem és” (esse dito foi alterado pelo cientista local Guerreux et alli). O porco vive em permanente estado de mau humor, com azia, gastrite e úlceras.
Como se não bastassem todas essas adversidades alimentícias, o porco, em 100% dos casos pesquisados, mora mal, a arquitetura do chiqueiro é por demais insalubre, os materiais utilizados são inadequados, o telhado é um misto de telhas de barro, tábuas, zinco e restos de brasilit; quando chove, o cubículo vira uma piscina. As dimensões, na média, são de um metro de largura por dois de comprimento; a porta é a própria parede.
A limpeza interior é feita de acordo com a disponibilidade, sobra de tempo do dono e a sua capacidade física de entrar no chiqueiro, e como isto é impossível, o porco vive sempre na “m”. As moscas adoram esse animal, por vários fatores: não reclama, tem dificuldade de virar a cabeça, além do mais ela é curta; o rabo é extremamente pequeno, não assusta mosca nenhuma. Como o seu habitat é imundo, as moscas estão na casa certa.
Estudos por mim efetuados ainda não comprovaram porque o bicho ronca; resultados parciais apontam a tendência do ronco como defesa para afastar as moscas. A sarna é outra doença ingrata que infortuna sua triste vida, e o dono nunca se sensibiliza pela sua coceira; resta a alternativa de coçar-se, mas nem todos os locais são atingíveis.
O suíno da região rural também não conhece privilégios; muitos têm o consolo de viver semi-aprisionados; como nunca sabem se vem bóia, criaram mecanismos de defesa. Passam o dia fuçando o solo em busca de minhocas; o seu focinho-trator é uma arma poderosa na cata de alimentos. O homem, precavendo-se contra este ataque lavratório, astuciosamente coloca um arame empinado para cima no focinho do animal.
Este porco passa então a viver uma vida de hábitos frugais, dedica-se ao sedentarismo. Nestes casos é possível fazer um estudo anatômico detalhado do número de costelas, e com um pouco de esforço visual, até das vísceras. Tenho visto até suínos amarrados à soga, a conhecida fórmula de colocar a “canaula” – uma forquilha presa ao pescoço dos porcos – é uma prática em franco processo de extinção.
Explica-se: com o aumento dos furtos, os suínos, outrora nômades, agora voltaram para os chiqueiros, aí o sofrimento é incomensurável, a qualidade de vida se nivela à do porco urbano. O dia da libertação é o dia da morte.

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