Ratos na direção

O Ministério Público Federal (MPF) confirmou que ocorreu uma grande fraude envolvendo o Detran gaúcho, com participação direta e extensa da Universidade Federal de Santa Maria e empresas fantasmas, que sugaram dos cofres públicos cerca de um milhão de reais mensais, num total de pelo menos R$ 50 milhões.
Foram denunciadas 44 pessoas envolvidas, inclusive nomes ralacionados com políticos gaúchos bem conhecidos, o que permite projetar a enorme dimensão do esquema e o alcance dos tentáculos criminosos dentro da esfera pública.
Com preços superfaturados para “serviços” terceirizados fornecidos ao Departamento Estadual de Trânsito, de modo que houvesse sobra de recursos para o esquema, a fraude visava a ampla distribuição de propinas para dezenas de pessoas, às custas dos gaúchos que pagavam, e ainda pagam, valores aviltados pelos serviços do Detran.
Desde já, entretanto, é destacado o fato de que pelo número de acusados e pelo total de testemunhas que podem arrolar a seu favor, estes processos levarão anos nos escaninhos do Judiciário até que ocorra a decisão.
Lá adiante, pelos mais diversos motivos, a grande maioria, senão todos, será absolvida. Mesmo se condenados, terá passado tanto tempo que ninguém mais lembrará dos fatos, o que na prática garante que a velha impunidade brasileira terá vencido mais uma.
Chama a atenção outro aspecto da fraude, além dos altos valores e dos nomes “ilustres” denunciados: como uma ação criminosa taõ ampla e tão longa pode ser feita sem que desperte suspeitas de tantos órgãos públicos que têm ligação com o Detran e com entidades/fundações, além de uma universidade federal bastante conhecida e respeitada até agora.
Dá para imaginar quantas outras ações nefastas estão ocorrendo no setor público, onde inexiste um trabalho competente para brecar os crimes no nascedouro ou, melhor ainda, evitar que sejam sequer gestados se houvesse uma implacável atenção sobre as possibilidades criminosas que se abrem onde existem recursos públicos abundantes.
A fraude do Detran revela, também, a desfaçatez de tantos figurões engravatados em ternos de grifes importadas existentes na área pública, todos jurando inocência mesmo quando apanhados em flagrante com dólares até nas cuecas. Pelo menos estas coisas servem para acordar boa parte da população que ainda dorme em berço explêndido, enquanto os ratos tomam conta não apenas do Detran, mas até da República.

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