Valentin Tramontina

Publicado em junho/2001

Lembranças das primeiras décadas da Tramontina

Elisa Tramontina

Nos dias de hoje, praticamente o mundo todo conhece a marca Tramontina, já que seus produtos são vendidos em mais de 100 países. As dez fábricas que compõem o Grupo Tramontina em Carlos Barbosa, Garibaldi, Farroupilha, Recife, Belém, Encruzilhada do Sul e Canoas empregam mais de 5.000, pessoas com uma linha de produtos superior a 10 mil itens.

A pujança e a solidez econômica dos dias atuais foram conquistadas após décadas de muito trabalho, dedicação e, acima de tudo, perseverança. Os primeiros anos foram os mais sofridos.

Em 1911, três anos após a ferrovia ter chegado até Carlos Barbosa, o ferreiro Valentin Tramontina chegou à cidade, oriundo de Santa Bárbara, interior de Bento Gonçalves. A pequena ferraria que montou na cidade, ao lado do pavilhão onde hoje tem a borracharia do Posto do Guerra, fazia pequenos consertos além de ferrar cavalos.

O início da hoje exuberante Cutelaria ocorreu em seguida, quando Valentin passou a fazer canivetes depois de ter visto um que veio da Itália. Em 1919 prestou serviço militar no Tiro de Guerra 395, mesmo ano em que comprou um terreno e fez a nova ferraria. No ano seguinte, em 1920, casou-se com Elisa de Cecco.

O casal teve três filhos, Ivo, Henrique e Nilo. Só Ivo ainda está vivo, já que os outros dois faleceram em tenra idade. A ferraria passou por dificuldades nas duas décadas seguintes, culminando com a morte de Valentin em 1939.

Foi quando aflorou de vez a fibra de Elisa. A viúva ficou com dois filhos pequenos e a responsabilidade de tocar adiante a pequena ferraria que também produzia canivetes.

Confira nesta matéria como foram as primeiras décadas da Tramontina, empresa que tornou-se exemplo para o Brasil e para o mundo. Para saber como eram aqueles anos no começo do século, o contexto ouviu vários barbosenses, todos com mais de 80 anos e até acima dos 90.

 

No começo do século passado surgia a ferraria

No milênio passado, bem no começo do século XX, eram fincadas em Carlos Barbosa as raízes de uma empresa que nove décadas depois tornou-se um dos empreendimentos mais bem-sucedidos do Rio Grande do Sul. O hoje badalado Grupo Tramontina nasceu em 1911, época em que Carlos Barbosa entrava em nova era, já que desde 1908 era uma das poucas cidades gaúchas com uma Estação Ferroviária ligada à Capital, Porto Alegre.

A cidade era totalmente diferente, com o casario todo de madeira e sem os agitados automóveis, como lembra Edevino Audibert, o Quati, que nasceu em 1913 e em 1922, aos 9 anos de idade, já trabalhava numa fábrica de artigos de vime.

"Só tinha um carro na cidade e eu nem lembro de quem era, mas as casas eram todas de madeira. Uma vez, mais tarde, um incêndio queimou uma fileira de casas de madeira, dali de onde começa a Praça para baixo. Eles conseguiram parar o fogo porque derrubaram uma casa, senão ia queimar mais algumas", lembrou Quati.

Dozolina Mantovani Bragagnolo, 97 anos, nasceu em 8 de fevereiro de 1904, sempre morou na cidade e lembra bem do começo da Tramontina: "Era uma ferraria e faziam tudo a mão, era lá onde está agora, sempre foi lá. Meus irmãos trabalhavam lá, nós éramos em doze e todos trabalharam lá. O Ricardo e o Luiz, que era o pai do Manoel, e o Nazareno faziam em casa, mas meu marido Deonísio Mantovani trabalhava na ferraria".

A anciã não esquece dos detalhes da produção. "Era tudo à mão, esquentavam o aço na brasa e faziam na morsa. Eles davam tudo, o aço e o chifre para fazer os cabos, faziam em casa, muitas vezes ficavam trabalhando até as duas horas da madrugada", relembrou Dozolina.

Ela era amiga de Elisa de Cecco, a esposa de Valentin, e não esquece aquele mulher destemida: "Ela veio de Bento, era forte e trabalhadeira. Ela cuidava dos operários, incentivava eles, mas sempre atenta. Ai daquele que colocasse fora um pedacinho de chifre, ela sempre cuidava. Quando ela ficou viúva, colocava nos ombros uma sacola como aquelas que se colocava nos cavalos. Quando tinha que fazer um negócio, ela rezava e pedia ajuda para seu filho, que morreu de tétano ainda criança".

Com 87 anos de idade, João Baptista Zanatta também recorda bem daqueles tempos. "Durante anos era só uma ferraria, num galpão de madeira. Depois, quando morreu o Valentin a viúva tocou sozinha. A Elisa era uma mulher de fibra. Eu ainda guardo um canivete daqueles tempos, com cabo de chifre", narrou Zanatta.

Outro ancião que ajuda a lembrar daqueles tempos é Delfino Regla, que nasceu em 1912. "A cidade era toda diferente e tinha as revoluções. Em 1923 as tropas passaram por aqui de trem e foi um acontecimento. Nessa época a Tramontina era só uma ferraria. O falecido Valentin ferrava cavalos e fazia consertos, e logo começou a fazer canivetes também", rememorou Delfino.

Cláudio Silvino Dalsin, 82 anos, nasceu em Torino em 1919, onde na época os tropeiros de gado faziam paradas de descanso. Ele também lembra daqueles dias de guri, quando via a boiada e se divertia.

"O Valentin Tramontina era ferreiro, e costumavam ir lá com os tropeiros arrumar corrida ou arrumar as ferraduras dos cavalos. Era só uma ferraria e no começo só ferrava cavalo e arrumava coisas de carroça e arado, mais tarde é que começaram a fazer canivetes", comentou Cláudio.

Ele também lembra da primeira mercadoria da Tramontina transportada em caminhão: "Quando morreu o Valentin a viúva não se entregou. Com o Ivo numa mão e a sacola cheia de canivetes na outra, ela descia de trem para vender em Porto Alegre. A primeira mercadoria encaixotada que foi a Porto Alegre foi no caminhão do meu pai, Bortolo Dalsin. Meu irmão Ivo ia uma vez por semana vender queijo com Ford 44 e levaram um caixote com canivetes da Tramontina".

Nascido em janeiro de 1914, Domingos Dalcin está com 87 anos e lembra do tempo em que trabalhou na Tramontina, já nos anos 50. "Eu trabalhei um ano sem carteira, ninguém tinha carteira assinada na época, mas em maio de 1953 assinaram a carteira. Eu era carpinteiro e fazia serviços gerais, foi nesta época que começou a se fazer outros barracões. O Ruy Scomazzon já tinha entrado de sócio e a fábrica começava a crescer", lembrou Domingos.

Nesta época, segundo o carpinteiro que trabalharia 26 anos na empresa, a Tramontina não passava de um casarão: "Na frente era de material e tinha de sete a oito metros de altura, e o telhado descia até fechar em zero no chão, lá no cantinho se jogava os restos de chifre e de aço. Quando eu entrei tinha uns seis ou sete empregados, quem comandava era a viúva Elisa e o seu Ivo, mas o Ruy Scomazzon já era sócio, e foi ele que começou a organizar tudo".

O ancião segue lembrando do passado: "Logo que eu entrei começaram a levantar o pavilhão, que está ainda hoje lá, eu fiz os caixões de madeira para fundir e colocar a viga em cima. Depois compraram o martelete e começaram a fazer foice e enxada".

"Logo que eu entrei ainda era a dona Elisa que comandava tudo, a bem dizer, ela era uma das cabeças mais boas de todas lá dentro. Se não era ela segurar não sei se isso ia para a frente. Ela pegava no duro e não brincava, e me dava cada puteada. Quando a gente tinha que cortar madeira para fazer os barracões, ela cuidava de cima e dizia ‘não corta essa tábua que é boa, pega uma mais ruim para cortar’", conta Domingos.

Domingos também lembrou que foi ele quem fez o primeiro carrinho de mão na fábrica: "Carregavam tudo no braço, até os canivetes prontos. Ai eu fiz uma caixa de madeira, e logo todos pediram e fiz para todos. Para puxar os materiais era tudo à mão, e fiz um carrinho de mão, não de luxo, com a roda feita de madeira, e o carrinho serviu para tudo, passaram a carregar tudo que é material, até para construir os outros barracões".

 

Fabriqueta de Arroio Canoas fez canivetes para a Tramontina

Corriam os derradeiros anos da década de 30, época em que na cidade a Ferraria de Valentin Tramontina produzia canivetes e pequenas facas, quando surgiu em Arroio Canoas uma pequena fábrica de canivetes – "uma fabriqueta", como dizem as pessoas que a conheceram em ação. Tal fábrica era de Lodovico Chies, mais conhecido por Ico.

Com a ajuda de Claudino Käfer, 68 anos, morador de Arroio Canoas, o contexto conseguiu ouvir três pessoas que lembram como era e como funcionava a indústria rudimentar, que se valia da força gerada por uma roda de água para fazer funcionar o esmeril e outros equipamentos.

"Nossa família era a última depois do Sagrado Coração, nós íamos na escola e passávamos sempre lá, tinha que descer um potreiro num valo grande. Era do Lodovico Chies, primeiro eles começaram com canivete, depois faziam facas e facões", lembrou Elina Ana Chies Deitos, 74 anos.

Rosalina Chies Deitos, irmã de Elina, 72 anos, lembrou que às vezes entravam na fabriqueta para procurar coisas: "Tinha o Ico, o Honório que trabalhavam lá, o Natal também, eu acho. A fabriqueta durou pouco tempo, faltava água para movimentar a roda e dar força. A gente tinha 10 ou 11 anos e entrava lá quando voltava da aula, mas eles faziam a gente correr", comentou Rosalina.

Natal Chies, que nasceu em 25 de dezembro de 1919, também lembra da fabriqueta: "Eu não trabalhei lá, a gente estava lá sempre junto, mas a fabriqueta era do Ico, que depois foi trabalhar na Tramontina, na cidade. Depois eu me associei com o Valdemar Tedesco, o Mimoso, que tinha uma torração de café, e montamos uma fabriqueta de pua, no tempo da guerra. Começamos em 44, mas depois terminou a guerra e entravam puas de fora".

Assim, em meio aos anos 40, Natal e Mimoso tinham sua pequena fábrica, localizada onde hoje existe a residência de Ivo Tramontina, na rua Elisa Tramontina, 428.

"A casa do Ivo Tramontina fizeram bem onde era a nossa fábrica, nós vendemos para eles e foi ali que a Tramontina começou a levantar", explica Natal.

 

<<Página principal Voltar ao índice >> E-Mail