Publicado em junho/2001
QUARESMA

Dias (que já foram) de penitência e respeito

"Para qualquer festa importante, a gente costuma se preparar. Quanto mais importante a festa, parece que mais tempo leva a preparação. E na preparação já se começa a viver a festa." A frase é do padre João Panazzolo e explica bem o que é a Quaresma: um período de quarenta dias que prepara os cristãos para a festa máxima da Igreja Católica, a Páscoa, quando Jesus Cristo morreu e ressuscitou prometendo vida eterna aos seus seguidores.

A Quaresma começou na Quarta-feira de Cinzas (posterior ao Carnaval) e se estende até o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. Caracterizava-se por um período de jejum, penitência e reflexão.

A frase está no passado porque muito se perdeu sobre o sentido da Quaresma. Especialmente entre a nova geração. Já quem viveu na primeira metade do século 20, mais precisamente até os anos 60, ainda lembra dos rigores da penitência.

Mais do que a preparação para um evento importante (a Páscoa), como é encarada nos dias de hoje, a Quaresma era um período de tristeza, dor, luto e penitência. Os padres seguiam ao pé da letra trechos da Bíblia como a Epístola de São Paulo aos Romanos, que diz: "Participamos dos sofrimentos de Cristo para participarmos também da sua glória".

A imposição dos pais (que por sua vez já vinha de família) marcava as crianças, que acostumaram-se a trocar as brincadeiras e a alegria pela dor e pesar nos quarenta dias da Quaresma, assimilando rituais que muitos até hoje, depois de adultos, não entendem direito para que serviam. Por outro lado, também eram tempos de grande fraternidade e amor pelo próximo.

Abstinência de carne em toda sexta-feira durante os 40 dias, missas em latim, oração que varava a madrugada, Vias Sacras, nada de festas, bailes, música, barulhos – todas estas imposições rigorosas da Quaresma foram suavizadas no famoso Concílio Vaticano II, realizado nos anos 60, e que promoveu uma verdadeira reforma litúrgica.

Nesta matéria o contexto preocupou-se em resgatar alguns destes aspectos rigorosos e abandonados da Quaresma: tradições, como a de cobrir os santos na Igreja, que não são mais postas em prática, e crendices populares que continuam vivas no imaginário, como a de que é preciso colher a marcela na madrugada da Sexta-feira Santa.

 


 

Cor roxa é adotada durante o período

A cor roxa é tradicionalmente a cor da Quaresma. "Ela é usada nos paramentos dos padres, nas toalhas do altar, enfim, em tudo. A Igreja se despe das flores e usa roxo na decoração", informou o padre João Panazzolo.

Pouca gente repara, mas a decoração da Igreja e os paramentos dos sacerdotes têm diferentes cores, usadas conforme a ocasião.

Além do roxo da Quaresma, a Igreja costuma usar o vermelho, na Sexta-feira Santa e Domingo de Ramos, passando um sentido de martírio, da dor de Cristo e do fogo do Espírito Santo; o branco, no Domingo de Páscoa e Quinta-feira Santa, simbolizando a paz; e o verde nos dias comuns, durante o ano, passando uma idéia de esperança.

Entretanto, assim como no Natal, a cor rosa também pode ser adotada durante a Quaresma, mas só no quarto domingo, representando tristeza.

O padre João explica que há tempos utilizava-se uma sexta cor nos paramentos, o preto, para velórios e cerimônias que lembrem morte ou perda, que saiu. Hoje, a cor adotada na ocasião também é a roxa.

 

A colheita da marcela

É uma tradição que se repete ano a ano no período de Quaresma: na madrugada da Sexta-feira Santa, antes que surja o sol, muita gente ainda corre em busca de marcela – erva que dá origem a um saboroso chá com propriedades medicinais.

O porquê da tradição, ninguém sabe. O que todo mundo sabe é que é preciso colher a marcela na madrugada da Sexta-feira Santa antes de amanhecer.

O padre João Panazzolo, pároco da Paróquia Nossa Senhora Mãe de Deus e Nossa Senhora das Graças (Arcoverde), disse que é coisa do imaginário popular e não tem relações com o Evangelho ou a data.

"Nunca soube ao certo porquê, era uma coisa que se fazia junto com a turma, então diziam que tinha que colher a marcela antes que levantasse o sol. Aí a gente corria procurar no meio das capoeiras, de madrugada", lembrou Nadyr Anna Baldasso, 66 anos.

Dory Carlotto Zanatta, 74 anos, também colhia a marcela sem questionar: "A gente ia buscar em uma baixada que tinha onde hoje é a rua Floriano Peixoto. Era um banhado, e a gente voltada molhados".

Foi Lira Maria Regla Bavaresco, de 60 anos, que ouviu na infância uma versão para a colheita da marcela. "Diziam que quando Cristo subiu o calvário com a cruz, no caminho tinha bastante marcela, e a planta passou a ser vista como algo sagrado, que faria bem para todos os problemas. Eu não colho mais, mas ganho todo ano de um vizinho", relatou.

A Quaresma na Bíblia

Todo o sentido da Quaresma, desde o período de 40 dias até os rituais diferentes usados nas missas, têm explicação nas páginas da Bíblia Sagrada.

Segundo o padre João Panazzolo, "a Bíblia usa com freqüência períodos de quarenta dias, ou quarenta anos, para indicar ocasiões especiais, em que são vividas experiências importantes".

Como por exemplo: os 40 anos que o povo de Deus caminhou no Deserto, guiado por Moisés, após a fuga do Egito; os 40 dias que Jesus Cristo ficou meditando no deserto; os 40 dias de Moisés no Monte Sinai; os 40 dias das andanças de Elias até a montanha de Deus, entre outros.

A missa de Quarta-feira de Cinzas inclui uma cerimônia de imposição das cinzas. O padre explica: "Isso é uma homenagem à passagem em que o profeta Jonas foi à cidade de Ninive e disse que em 40 dias ela seria destruída se não fizessem penitência, então o povo se vestiu com trapos e cobriu a cabeça com cinzas. Mas também é um apelo, uma lembrança que nós somos pó, depois da morte não sobra nada do nosso corpo, das

nossas vaidades, e é necessária

esta conversão".

 

Padre comenta o sentido dos 40 dias de penitência

A Páscoa é o evento mais importante do catolicismo, disse o padre João Panazzolo ao contexto, assim é compreensível o respeito e a penitência em quarenta dias de preparação para a data.

"Nós, cristãos, celebramos todo o ano a festa da Páscoa, morte e ressurreição de Jesus e a nossa. É a maior de todas as festas, a mais importante. Por isso estabelecemos a sua preparação para quarenta dias. Daí quaresma, quarenta dias", justificou.

Mais do que um período de penitência, explica o padre, a Quaresma deve ser usada para um contato maior com a própria fé e com o legado deixado por Cristo.

"Quaresma é tempo em que a gente se dedica com mais atenção à escuta da Palavra de Deus e à oração, um tempo em que a gente procura se educar com mais afinco para realizar melhor nossa missão de cristãos, tempo propício para a gente se converter ao Cristo e ao seu Reino", definiu.

Segundo ele, "há uns tempos a Quaresma tinha um estilo de fazer penitência, mas hoje, com o mundo moderno e urbanizado, as formas de penitência também se modificam. Quando existem pobres e pessoas que passam fome, como você vai dizer para as pessoas fazerem jejum?", questionou.

Assim, diz o padre, o jejum na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa deveria ser mais simbólico, "no sentido de renunciar às coisas supérfluas, como bebidas alcoólicas, fumo, e guloseimas, no caso das crianças".

Dentro dos 40 dias também é possível corrigir muitas coisas, sugere o padre: "Assim como para corrigir uma escrita apagamos primeiro os erros, para corrigir nossos rumos de vida confiamos no perdão de Deus, que apaga nossas faltas. Por isso Quaresma é também tempo de revisão de vida, de penitência, de reconhecer com humildade e confiança onde estão nossas deficiências e buscar o perdão e a força de Deus. Isso se faz com esperança que vem da fé no amor de Deus Pai, que nos enviou seu Filho Jesus e na força do Espírito Santo, que sempre nos chama, nos ama, nos ajuda, perdoa e faz crescer".

Além dos diferentes eventos programados para os 40 dias, como a missa do Domingo de Ramos e a tradicional procissão na Sexta-feira Santa, as comunidades também irão se mobilizar em torno da Quaresma.

A comunidade do bairro São Paulo, por exemplo, iniciou na Quarta-feira de Cinzas sua Via Sacra, que repete toda sexta-feira, às 19h30min, subindo o Morro Calvário em oração.

O padre João incentiva estas manifestações de fé: "O tempo de Quaresma é um tempo próprio para, nas comunidades, participar de alguma celebração penitencial, individual ou comunitária: participar da caminhada do Jesus sofredor, de ontem e de hoje, participando de procissões (Domingo de Ramos, da Sexta-feira Santa, Via Sacra, encontros de famílias de Via Sacra)".

 

QUARESMA IMPLICA EM MUDANÇAS NOS RITUAIS

Segundo o padre João, são vários os símbolos e atitudes que acompanham o tempo de Quaresma, entre eles a cor roxa (veja texto ao lado), as cinzas e a cruz, "que lembram o caráter de penitência e conversão. Neste tempo, evita-se de colocar flores no altar", informou.

Não é a única mudança: nos quarenta dias da Quaresma, a oração do Glória é omitida das missas, assim como o canto do Aleluia. A parte da aclamação ao Evangelho da cerimônia religiosa é substituída por uma aclamação a Cristo Senhor.

 

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